Prefeitura diz que dará apoio técnico e financeiro para viabilizar e acelerar próximas fases da vacina, estimadas em R$ 4 milhões. Projeto de cientistas já concluiu etapas pré-clínicas; pesquisadores acreditam que, se houver mais recursos, trabalho pode ser concluído em dois ou três anos.

Uma parceria entre a Prefeitura de São Paulo e pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolvem desde 2015 uma vacina contra a dependência em cocaína e crack, foi feita no começo deste mês para que os cientistas consigam avançar no projeto, que já concluiu as etapas pré-clínicas em animais.

Nos testes realizados até o momento, os pesquisadores constataram que os anticorpos produzidos pela vacina, chamada de Calixcoca, criam uma barreira a partir de uma molécula sintética, impedindo que a cocaína seja levada pelo sangue para o sistema nervoso central e o cérebro. Com isso, o mecanismo que provoca a compulsão pela droga é interrompido.

A pesquisa ainda indica que a vacina, além de ajudar no tratamento dos dependentes químicos, pode proteger os bebês de gestantes usuárias de drogas (entenda mais abaixo).

E a colaboração da prefeitura com os pesquisadores consiste em dar apoio financeiro e também técnico para que o projeto avance a partir de agora. Os cientistas acreditam que, com os recursos, o trabalho possa ser concluído em dois ou três anos. Com o financiamento, o próximo passo é pedir a autorização da Anvisa para testar o imunizante em humanos.

“Essa luta não é só das famílias, mas também do poder público, para garantir tratamento a todos que necessitam”, afirmou, em nota, o prefeito Ricardo Nunes (MDB).

A reunião entre o professor Frederico Garcia, responsável pela pesquisa na UFMG, e a equipe da prefeitura, foi feita em 1º de junho.

Participaram os secretários municipais Luiz Carlos Zamarco (Saúde) e Edson Aparecido (Governo), além do chefe de gabinete da gestão municipal, Vitor Sampaio, e o coordenador da Vigilância em Saúde, Luiz Artur Caldeira.

“Esse é um problema prevalente, vulnerabilizante e sem tratamento específico. Os nossos estudos pré-clínicos comprovam a segurança e eficácia da vacina nesta aplicação. Ela aporta uma solução que permite aos pacientes com dependência se reinserir socialmente e voltar a realizar seus sonhos”, explica Frederico Garcia, professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina e pesquisador responsável, em material divulgado pela Universidade.

“Até então, este projeto foi inteiramente desenvolvido com recursos governamentais. Para restaurar a liberdade das pessoas com dependência e prevenir as consequências fetais, precisamos dar início nos estudos com humanos”, disse Garcia em comunicado divulgado pela UFMG.

Vitor Sampaio, chefe de gabinete da gestão municipal, afirmou que Nunes determinou “apoio irrestrito, tanto técnico como financeiro, para viabilizar e acelerar as próximas fases da vacina, que poderão custar R$ 4 milhões, inicialmente”.

Conforme a prefeitura, na próxima etapa das pesquisas, viabilizadas pela Secretaria Municipal da Saúde, por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), será avaliada a aplicação do imunizante “em grupos elegíveis, incluindo os dependentes químicos em fase de recuperação”, conforme o progresso dos estudos.

“Será, entre outros avanços científicos, um movimento para recuperação psicossocial e reintegração de dependentes químicos à sociedade”, afirmou Zamarco.

Como funciona a vacina?

O imunizante desenvolvido na UFMG foi indicado ao prêmio Euro, que reconhece a inovação de profissionais latino-americanos em medicina. Ele induz o sistema imune a produzir anticorpos que se ligam à cocaína na corrente sanguínea.

Essa ligação transforma a droga numa molécula grande, que não passa pela barreira hematoencefálica, estrutura que regula o transporte de substâncias entre o sangue e o sistema nervoso central.

Outra possibilidade de uso foi observada nos testes em ratas grávidas, que produziram níveis significativos de anticorpos.

Segundo o pesquisador, uma vacina para a prevenção primária de transtornos mentais seria inédita na psiquiatria.

A patente já foi depositada pela Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica (CTIT) da UFMG.

 

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