Isso não significa, contudo, que a poluição ambiental gerada pelo PPC não esteja envolvida no desenvolvimento de outras doenças, segundo responsável pelo estudo.

A Secretaria Municipal da Saúde apresentou neste mês, na Câmara Municipal de São Paulo, o resultado do inquérito epidemiológico sobre a possível relação entre a poluição emitida pelo Polo Petroquímico de Capuava (PPC) e a incidência de doenças tireoidianas em moradores de bairros vizinhos ao complexo.

O estudo, realizado a pedido de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), concluiu que residentes de áreas próximas ao polo petroquímico não possuem risco mais elevado de desenvolver alterações no funcionamento da glândula tireoide, comparado a pessoas que vivem longe dele.

Isso não significa, contudo, que a poluição ambiental gerada pelo PPC não esteja envolvida no desenvolvimento de outras doenças, segundo Alexandre Mendes Batista, analista em Saúde na Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), um dos responsáveis pelo estudo (leia mais abaixo).

O Polo Petroquímico de Capuava fica localizado entre os municípios de Mauá e Santo André, fazendo divisa com os bairros São Rafael, São Mateus e Sapopemba, na Zona Leste da capital paulista. Ele foi instalado na região em 1954, quando a Petrobras abriu uma de suas primeiras refinarias do estado lá. Atualmente, abriga várias empresas que alimentam indústrias químicas e plásticas.

Realização do inquérito
Inicialmente, a CPI da Poluição Petroquímica, que está em andamento na Câmara Municipal, solicitou um estudo completo sobre o impacto da poluição atmosférica gerada pelo PPC na saúde dos moradores da região, englobando também doenças respiratórias.

Contudo, após consultarem especialistas, os técnicos da Covisa, responsáveis pela elaboração do inquérito, perceberam que não teriam condições de realizar algo tão complexo num curto período de tempo (em razão da CPI) e decidiram focar na investigação de doenças tireoidianas, preocupação inicial dos vereadores da comissão.

O estudo foi dividido em três etapas:

1ª FASE — entrevista com moradores de domicílios sorteados

Foram estipulados dois grupos, um formado por moradores das áreas com maior exposição à poluição emitida pelo PPC (São Rafael, São Mateus e Sapopemba) e outro de pessoas que residem em áreas mais distantes (Itaim Paulista e Jabaquara), consequentemente menos expostas às emissões do polo, o chamado “grupo controle”.

Nesse processo, todos responderam a um questionário. As pessoas que mencionavam ter pelo menos três sintomas típicos de doenças tireoidianas — como dor de garganta, rouquidão, ganho de peso e queda de cabelo — ou histórico de alteração na glândula recebiam encaminhamento para realização de exames em suas unidades de saúde de referência.

Total de pessoas entrevistadas: 3.674, sendo 60% da área de exposição e 40% do grupo controle;
Com sintomas e/ou histórico: 879 pessoas.
2ª FASE — coleta de exames e avaliação médica

Os indivíduos que mencionaram ao menos três sintomas ou histórico de doença na etapa anterior realizaram coleta de exames (TSH, T4 e anti-TPO) e depois passaram por consulta médica.

Por meio da análise dos hormônios TSH e T4 é possível saber como está o funcionamento da tireoide. Já a averiguação de anticorpos contra peroxidase tireoidiana (TPO) permite a detecção de doenças autoimunes na glândula, como a Tireoidite de Hashimoto.

Total de encaminhados para exames: 879 pessoas;
Concluíram a segunda etapa: 656 pessoas.
3ª FASE — análise comparativa

Na última etapa, os pesquisadores compararam os dados obtidos no “grupo de exposição” e no “grupo controle” para verificar se a incidência de doenças tireoidianas nas áreas próximas ao polo se mostrava maior do que nos demais locais.

Resultados
O inquérito epidemiológico verificou que apenas 25% das pessoas que mencionaram ter pelo menos três sintomas característicos ou histórico de alterações na tireoide realmente apresentavam doença tireoidiana.

Das 165 pessoas diagnosticadas, 102 moravam próximas ao Polo Petroquímico de Capuava. Dessas, 72% têm hipotiroidismo, ou seja, baixa produção de hormônios na glândula. No “grupo controle”, o índice de hipotiroidismo foi de 86%.

Considerando o total de entrevistados, incluindo os que não relataram sintomas ou histórico de doença, 4,6% do “grupo de exposição” apresentou alguma alteração na tireoide, taxa pouco superior à encontrada no “grupo controle”, de 4,2%.

No estudo, apenas uma pessoa recebeu o diagnóstico de Tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune: um(a) morador(a) da região próxima ao PPC. Porém, Alexandre Mendes Batista, analista em Saúde da Covisa, explica que análises mais específicas podem elevar esse número futuramente.

“O médico deu diagnóstico que é hipotiroidismo e existem exames complementares que podem dizer se esse hipotiroidismo é autoimune ou não. Então, ele pode estar investigando mais pra frente, mas o que a gente precisava era encerrar essa segunda etapa do inquérito pra apresentar pra vocês [vereadores] os resultados”, disse Batista em audiência na Câmara.

Segundo a Covisa, a literatura disponível sobre doenças tireoidianas mostra que o índice de prevalência delas na população geral varia de 6,6% a 13,4%.

Queixas relacionadas à poluição
Outro dado obtido pelo inquérito epidemiológico foi que 77% dos entrevistados que vivem na área de exposição reclamaram de ao menos um fator relacionado à emissão de poluentes atmosféricos pelo polo petroquímico.

Nas áreas mais distantes, esse índice foi de apenas 26% entre os moradores do “grupo controle”.

“O que a gente conseguiu ver nesse inquérito foram só doenças tireoidianas, mas a gente não pode dizer que tem ou que não tem doenças ocorrendo ali na região por conta dessas reclamações. A gente não fez essa avaliação”, afirmou Alexandre Batista.

“Nós recomendamos que novos estudos sejam conduzidos na região para verificar a qualidade do ar e a probabilidade do desenvolvimento de doenças relacionadas à emissão de poluição atmosférica que podem estar acometendo a população residente nos bairros próximos à polos industriais”, concluiu a diretora da Divisão de Vigilância em Saúde Ambiental da Covisa, Magali Batista, aos vereadores.

 

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