Guardas pediam de R$ 1,5 mil a R$ 5 mil por segurança de cada prédio. Gestão municipal identificou planilha com data limite para pagamento de ao menos 34 estabelecimentos. Sete agentes foram afastados.

A Prefeitura de São Paulo investiga um grupo de Guardas Civis Metropolitanos (GCM) por cobrarem uma taxa de proteção a comerciantes na Cracolândia, no Centro da capital paulista. Sete agentes foram afastados das atividades.

Segundo denúncia, eles ganhavam de R$ 1,5 mil a R$ 5 mil para proteger os prédios.

Os agentes envolvidos integram a IOPE (Inspetoria de Operações Especiais), agrupamento destinado para operações de maior risco.

Segundo testemunhas, durante uma negociação com empresários da Cracolândia, um dos guardas chegou a comparar a IOPE com a Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a tropa de elite da Polícia Militar paulista.

O grupo é alvo de apuração que ocorre sob sigilo na Corregedoria da GCM.

O caso foi relevado pela TV Band e confirmado pelo g1.

Como funciona o esquema
A investigação encontrou uma lista de pelo menos 34 lojistas que aceitaram o acordo e teriam data limite para pagar a taxa de proteção, dentre restaurantes, lotéricas, chaveiros, oficina mecânica e até consultório dentista.

Sob nome de “colaboradores de boa-fé que pagam a segurança”, os integrantes tinham uma planilha pela qual controlavam os pagamentos.

Os guardas criaram um grupo no WhatsApp para se comunicar com os lojistas. Em agosto de 2022, 10 dias depois de a cobrança passar a ser feita, um dos integrantes do esquema comemora que “com a ação dos seguranças e também com a força de segurança pública”, as ações criminosas “a cada dia vem perdendo força”.

Para o recebimento dos valores, os guardas usavam o CNPJ de uma empresa chamada Law & Force Monitoramento LTDA, fundada em setembro de 2022.

A inscrição na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp) aponta como “objetivo social” da empresa atividades de serviços de segurança e montagem e instalação de equipamentos de iluminação e sinalização. A empresa tem capital de R$ 10 mil.

O titular e único sócio listado na Jucesp é um dos GCMs investigados pela Corregedoria e afastado dos serviços de rua até a conclusão das investigações. Ele ocupa o cargo de classe especial na IOPE.

Segundo o Portal de Transparência da Prefeitura de São Paulo, Guardas Civis Metropolitanos de classe especial (categoria 4), a qual pertence o agente afastado, e atuam na região central da capital, recebem salários brutos que variam de R$ 7.531,49 até R$ 4.007,25.

Criminalidade na Cracolândia
A região do Centro de São Paulo tem registrado aumento na criminalidade em 2023, com saques em farmácia e mercado, tentativas de invasão a comércios e roubo e furto de celulares realizados por dependentes químicos da Cracolândia.

Dados divulgados com exclusividade pelo Monitor da Violência, do g1, em parceria com o Fantástico mostram que a cidade de São Paulo tem um registro de celular roubado ou furtado a cada 3 minutos. Foram mais de 200 mil ocorrências ao longo de 2022.

Os dados apontam que:

Foram feitas 202 mil ocorrências de roubo e furto de celular na capital em 2022.
Esse número representa uma alta de 12% em relação ao ano de 2021, quando foram feitas 179 mil ocorrências.
Uma parte considerável dos casos acontece na região Central da cidade. Os distritos policiais dos Campos Elíseos e Sé lideram o ranking do maior número de registros, com 11,4 mil e 10,2 mil, respectivamente.
A via da capital menos segura para os donos de celulares foi a Avenida Paulista, que teve 5,3 mil registros de roubo ou furto no ano.
A Paulista, inclusive, tem quase o dobro de casos que a segunda colocada, a Avenida do Estado (2,9 mil).
3 a cada 10 casos acontecem no período da noite.

Embora altos, os números não refletem necessariamente o cenário real com precisão, já que muitas vítimas não registram boletim de ocorrência.

Além disso, os dados se referem a ocorrências de roubos e furtos, e não à quantidade de celulares roubados. Como é possível que mais de um celular tenha sido roubado ou furtado por ocorrência, o número de aparelhos é mais alto que o número de registros.

A Polícia Civil tem realizado operações na região da Cracolândia para apreender aparelhos e prender receptadores.

O que diz a Prefeitura de SP
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que “estava em curso investigação de desvios de conduta na região e que afastou sete servidores de suas funções na Inspetoria de Operações Especiais (Iope) da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Colocados à disposição da Corregedoria, todos estão restritos de atuação em qualquer área da GCM. As investigações seguem em sigilo até a completa correição da atuação da força de segurança, respeitando rigorosamente a legislação em vigor.”

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