Após ser aceita pelo programa Redenção, da Prefeitura de SP, Ravenna conseguiu completar ensino médio a distância com a ajuda de assistentes sociais, começou seu tratamento hormonal e passou por desintoxicação. Hoje afirma: ‘Tem saída’.

“A rua é acolhedora e destruidora ao mesmo tempo”, reflete Ravenna Victoria ao se lembrar dos sete anos de calçada vividos na Cracolândia. Está “limpa” há um ano e dois meses e vive na região de Ermelino Matarazzo, na Zona Leste, perto do Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (Siat III) que a acolheu e onde morou por quase dois anos.

Mulher trans, Ravenna, de 26 anos, tem longas tranças, unhas vermelhas em gel e veste uma camiseta com a palavra “orgulho”. Nos braços, tatuagens com temáticas infantis. Garota superpoderosa. Mickey. Liza Simpson. É na laje do equipamento da prefeitura que conta sua história ao g1.

Ela volta no tempo, especificamente para 2013, na cidade de Havenna, Itália. “Foi lá que contei para minha mãe que era trans. Ela então me batizou com o nome Ravenna”, lembra. Tinha 16 anos. No ano seguinte, no Dia de Finados, sua mãe morreu. Ela não comenta sobre o pai. Aos 17, se mudou para São Paulo. Nascida em São Roque, conhecida como a cidade do vinho no interior paulista, quis cursar inglês na capital. “Aí aconteceram os perrengues da vida. Caí na rua.”

Em março de 2020, Ravenna completava sete anos de calçada quando foi levada num camburão do Denarc junto com dezenas de suspeitos. O coração acelerou. Ela descreve aquele momento como o mais marcante da sua vida. “Fui a primeira a conseguir liberdade. Ainda era nova, precisava resolver aquilo.”

Sua primeira cama foi um beliche do quarto 10 no Siat II do Glicério. Ficou lá por oito meses. Depois foi chamada para a unidade de Ermelino Matarazzo. O espaço já foi um motel e hoje pertence à Prefeitura de São Paulo. Sua primeira impressão foi a de um local privilegiado.

”No começo foi um baque. Sair de uma situação extremamente vulnerável e ter meu quarto próprio, meu próprio banheiro”, lembra, sobre sua chegada ao Siat III em outubro de 2020.

O período que seguiu foi permeado por atividades de redução de danos: oficinas de inclusão digital, culinária, esporte, música, atividades externas com acesso à cultura e lazer. Uma das atividades preferidas da Ravenna era o vôlei. Também fazia o uso da cannabis como forma de amenizar o desejo de uso da droga de abuso.

A recuperação de dependentes químicos é uma luta diária. “No começo, recaída era meu segundo nome. Teve uma vez que a própria equipe aqui foi me buscar lá na Cracolândia.” Depois, conta, nunca mais teve uma recaída feia. “Só deslizes.” Ravenna deixou o Siat III em 29 de agosto de 2022.

O presente de Ravenna
“Agora tenho minha casinha alugada”, conta. Mora com uma cadelinha chamada Stela, que adotou na Sé, e o namorado, que conheceu na Cracolândia. Mas o relacionamento só decolou durante a desintoxicação. Metade rottweiler, metade labrador, Stela segue Ravenna pelos andares do prédio de cor verde transformado em espaço de acolhimento e com capacidade para 60 pessoas.

Faz faculdade para realizar seu sonho de ser assistente social e trabalha como orientadora socioeducativa num projeto que acolhe outras mulheres trans. “Conheci tanta mulher maravilhosa que também quero fazer parte disso, entendeu?”

Raquel Caroline Machado, assistente social há 12 anos e que a acompanha, segura a lágrima. A futura assistente social conseguiu completar o ensino médio a distância com a ajuda das mulheres que a inspiraram a seguir a profissão. Também começou seu tratamento hormonal.

Raquel, “a madrinha”, interrompe Victoria e diz que Duda também topou dar entrevista. Duda ocupa o quarto 34, o mesmo em que Ravenna permaneceu por quase dois anos no Siat. Alegre, Ravenna grita. Quer rever o quarto e a amiga.

Enquanto isso, no corredor do apartamento 34, um dependente com fissura procura Raquel. Está “limpo” há semanas, mas confessa que não consegue pensar em outra coisa além do crack, por isso pede ajuda.

O g1 encontra Duda sentada no centro da cama e “limpa” há seis meses. “Por sinal, os melhores da minha vida. Antes de vir pra cá, não fazia nada, a não ser ficar louca por aí”, desabafa. Na parede, uma bandeira LGBTQIA+.

“Significa tudo pra mim. Sou uma mulher trans construindo minha vida novamente”, conta Duda.
Um dia antes de conversar com o g1, Duda solicitou a troca de nome e gênero em sua documentação. Está no terceiro ano do ensino médio e sente-se mais bonita. Pretende fazer faculdade. “Quero ser assistente social. Este é meu sonho.” Raquel segura a lágrima de novo.

Assistentes e vínculos
“Acho que todas as meninas que me atenderam e me acolheram durante essa jornada me inspiram. Eu lembro o nome de todas: Rosa, Jade, a Negona, mãe Kátia. Tem a Vivi, tem a Perla, tem a Rachel. Tem a Patinha, todas. Se acontece uma coisa comigo aqui, todas sabem.” Questionada se alguém, fora “as meninas”, a inspira, é categórica: “Não. Minha família é aqui, nega. Elas são minha família.”

Perla Maria Pinho Bejar, gerente da assistência do Siat II Glicério, enviou uma mensagem ao g1 ao saber que foi mencionada. “Eu acho que sempre disse muitos ‘nãos’ pra Ravenna. Fico muito agradecida.”

Ravenna balança as tranças: “Amiga, é a Nova Era. Ravenna é uma futura assistente social”.
A “madrinha” Raquel sempre trabalhou em cenários com potencial para violência e repete diversas vezes a palavra “vínculo” como se esta fosse a fórmula para que sua profissão seja valorizada entre pessoas em vulnerabilidade social. “É muito desafiador lidar com as dores, o abandono, a violência.”

A assistente social conta, em outro momento, que as atividades recomendadas para reduzir a fissura do dependente que a procurou naquela tarde foram fazer pão e correr no pequeno ginásio até cansar.

Ela se lembra de uma frase que escutou recentemente: “Você não desistiu de mim quando eu já havia desistido”. E defende que o assistente social olhe para além da aparência. “A droga aparenta ser só o começo, e tampouco será o fim. A ferramenta é o vínculo.”

Duda permanece no quarto 34. Está focada em seus planos. Com relação à retificação do nome, aguarda os trâmites legais. A madrinha Raquel observa o reencontro das amigas sem censura, apenas com um riso de canto, orgulhosa do seu trabalho.

“Tem saída”, afirmam.

Fora da Cracolândia, as duas mulheres trans acolhidas pelo programa municipal Redenção inspiram-se em assistentes sociais.

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