Casos confirmados em aves silvestres trazem alerta sobre disseminação da doença; Brasil já notificou 13 casos; entenda como ocorre a transmissão.

As aves silvestres migratórias desempenham um papel crucial nos ecossistemas, conectando diferentes regiões do mundo enquanto atravessam continentes. No entanto, são elas que correm o risco de serem infectadas com o vírus da gripe aviária (H5N1), que tanto pode ser inofensivo como fatal para elas e para os humanos. No ambiente silvestre a doença pode ter um efeito devastador sobre a biodiversidade.

Mas você sabe como ocorre essa transmissão? A H5N1 normalmente surge quando aves silvestres infectadas com o vírus, especialmente as espécies que não apresentam sintomas, entram em contato com outras aves, geralmente durante o período de migração.

Durante a viagem, as aves se reúnem em locais de parada ao longo de suas rotas, como em áreas de reprodução, alimentação e até de descanso. E são nesses momentos que surge o risco de transmissão do vírus, seja por meio de gotículas respiratórias, fezes contaminadas ou contato direto. Assim, as aves silvestres residentes também se infectam, resultando na manutenção e evolução do vírus.

“Esse vírus pode ser transmitido para aves de criação e outras espécies quando entram em contato com aves domésticas. Assim como aconteceu com a COVID-19, onde o vírus passou de animais para os seres humanos”, explica Erika Hingst-Zaher, zoóloga do Museu Biológico do Butantan e pesquisadora do PREVIR (Projeto Rede de Vigilância de Vírus).

Até o momento, o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil notificou 13 casos da doença em aves silvestres, sendo nove no Espírito Santo, dois no Rio de Janeiro e um no Rio Grande do Sul. Embora no Brasil não tenha havido registros da doença em humanos ou em aves destinadas ao consumo, é necessário um monitoramento constante.
A pesquisadora do Butantan explica que o projeto de monitoramento das aves migratórias surge como uma ferramenta essencial na prevenção e controle da influenza aviária. “O trabalho envolve equipes multidisciplinares que atuam em áreas como ornitologia, virologia, ecologia, veterinária e biomedicina, trabalhando em conjunto para mapear esses casos. O objetivo é detectar os vírus com potencial de emergência para as pessoas em diferentes regiões do Brasil, de maneira mais precisa”, destaca a especialista.

Erika também menciona que realiza esses levantamentos em florestas tropicais da Amazônia e da Mata Atlântica. “Coletamos dados sobre as rotas migratórias, locais de parada, padrões de comportamento e interações com outras espécies. Essas informações são fundamentais para compreender os movimentos dessas aves e identificar áreas de alto risco para a propagação da gripe aviária”, explica.

Helena Lage Ferreira, professora da USP de Pirassununga e coordenadora do PREVIR, afirma que a rede já estava atenta aos casos e intensificou o monitoramento desde outubro do ano passado em algumas espécies de aves consideradas hospedeiras desse vírus, como as aves silvestres aquáticas.

“Nossa missão é realizar uma vigilância ativa em animais silvestres que não apresentam sinais clínicos. São animais saudáveis que, apesar de não demonstrarem sintomas, também podem representar um risco para a saúde dos animais domésticos e das pessoas de maneira rápida”, destaca.

A professora da USP também ressalta que esses animais são hospedeiros esporádicos ou acidentais. “Portanto, com a identificação desses patógenos, será possível desenvolver testes e vacinas para o preparo de futuras epidemias e pandemias” reforça a especialista.

Encontrei uma ave morta, e agora?

Se você encontrar uma ave morta, o recomendado é não tocar no animal e notificar imediatamente os órgãos estaduais de saúde animal ou as Superintendências Federais de Agricultura e Pecuária, ou utilizar a plataforma e-Sisbravet para fazer a notificação.

Ações de comunicação sobre a doença e medidas de prevenção foram reforçadas para aumentar a conscientização e sensibilizar a população em geral, especialmente os criadores de aves. Isso inclui a notificação imediata de casos suspeitos da doença e o reforço das medidas de biossegurança nas instalações de produção avícola.

Ao prevenir a disseminação da gripe aviária, evitam-se consequências econômicas negativas para a indústria avícola e, principalmente, protege-se a saúde pública, reduzindo o risco de transmissão do vírus para os seres humanos.

Estatísticas

Atualmente, o mundo enfrenta a maior epidemia já registrada de influenza aviária, e a maioria dos casos estão relacionados ao contato de aves silvestres migratórias com aves domésticas de subsistência, produção ou aves silvestres locais.

Na América do Sul, foram notificados casos da doença em países como Colômbia, Equador, Venezuela, Peru, Chile, Bolívia, Uruguai, Paraguai e Argentina, alguns limitados a aves silvestres e outros afetando aves domésticas de subsistência ou produção.

Dependendo do avanço das investigações e do cenário epidemiológico, novas medidas podem ser adotadas pelo Ministério da Agricultura e pelos órgãos estaduais de saúde animal para evitar a disseminação da doença e proteger a avicultura nacional.

A realização de exposições, torneios, feiras e outros eventos com aglomeração de aves continua suspensa em todo o território brasileiro, de acordo com a Portaria MAPA nº 572, de 29/3/2023, que tem uma duração inicial de 180 dias.

Testes da vacina

O Instituto Butantan iniciou o processo de desenvolvimento de uma possível vacina contra a gripe aviária em humanos. Atualmente, os testes estão sendo realizados com cepas vacinais fornecidas pela Organização Mundial da Saúde, e o primeiro lote está pronto para testes pré-clínicos.

O objetivo do Instituto é preparar o país para enfrentar potenciais pandemias com base na experiência adquirida no desenvolvimento e disponibilização de vacinas para a Covid-19 nos últimos anos.

Posso consumir aves?

Não há evidências que indiquem a infecção por meio do consumo de frangos adequadamente cozidos ou de produtos derivados.

No entanto, é fundamental garantir a segurança alimentar ao manipular carne de frango crua. Recomenda-se cozinhar a carne de frango a uma temperatura mínima de 70°C, além de adotar práticas higiênicas, como lavar as mãos e as superfícies que entraram em contato com a carne. É aconselhável escolher produtos de origem inspecionada pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF) ou pelo Serviço de Inspeção Estadual (SIE).

No caso dos ovos, é importante lavá-los antes de manuseá-los, pois a casca pode ser contaminada pelo contato com as fezes das aves. Também é recomendado tomar precauções adicionais de higiene ao manusear ovos, como lavar as mãos.

 

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