Presidente Solange Rezende vai mostrar samba composto por falecida irmã. Escola vai falar sobre o poder feminino para reconexão com o universo usando elementos de cultura afro.

A Mocidade Alegre vai para o Sambódromo do Anhembi com Aline Oliveira à frente da bateria pelo 17º ano seguido e com o aval da presidente, Solange Rezende. A Mocidade tradicionalmente não tem famosas na escola.

“Achamos que carnaval é o momento da comunidade e temos meninas à altura para assumir esse posto. Não sou contra [famosas na escola], não entramos no mérito, mas a princípio gostamos de dedicação, participação e samba no pé. Para ser rainha ou musa tem que ser por mérito”, diz Solange.

Destaque de carro alegórico da Mocidade Alegre — Foto: Fabio Tito/G1
Destaque de carro alegórico da Mocidade Alegre — Foto: Fabio Tito/G1

Em 2020, a escola do Limão, bairro da Zona Norte de São Paulo, vai falar sobre o poder feminino para a reconexão com o universo usando elementos de cultura afro. A Mocidade contratou o carnavalesco Edson Pereira para coordenar os trabalhos ao lado de Paulo Brasil e Márcio Gonçalves.

Solange conta que o samba foi composto pela falecida irmã dela, Elaine Bichara. “Na realidade era um enredo guardado, feito pela minha irmã, e estávamos esperando o momento certo para utilizar. Casou com um assunto tão em alta nesse momento”, disse ela ao G1.

Cultura afro

O enredo “Do canto das Yabás renasce uma nova morada” sintetiza a reconexão com o criador universal através da força feminina, representada por orixás da água.

Yabás são orixás femininos da água como Iemanjá, a rainha das águas do mar, que representa a geração; e Oxum, orixá que tem sua força nas cachoeiras e representa o amor. Algumas fontes consideram yabás outros orixás femininos que não são da água, como Iansã.

A “nova morada” a que se refere o enredo é uma reconexão com Olorum, que, em sua origem na mitologia iorubá, quer dizer dono do orun (céu) e criador do orun e do aiye (Terra). Com origem principalmente na Nigéria, Benin e Togo, o iorubá está na origem de religiões afro como o candomblé e a umbanda no Brasil.

A ideia do enredo é mostrar um canto de esperança para que a Terra volte a ser um paraíso, exaltando a sabedoria, a força e o poder feminino.

Detalhe de carro da Mocidade Alegre — Foto: Ardilhes Moreira/G1
Detalhe de carro da Mocidade Alegre — Foto: Ardilhes Moreira/G1

Veja a letra do samba:

Do canto das Yabás renasce uma nova morada

Yabá cantou, o chão estremeceu
O corpo arrepiou, a lágrima correu
Oh mãe rainha te ofereço na avenida
A Mocidade, emoção da minha vida

Olorum
Supremo criador do universo
Teus olhos sofrem com meus gestos
Oh, meu senhor
Agô, meu pai maior
Tanto caos, destruição
No aiyê o tambor vai ecoar
É preciso acreditar na força de obatalá

Yaô
Bela menina
Yaô
A esperança
Entregue nos braços de yemanjá
Nas águas purificar
Odoya

Deusa do amor: Mamãe oxum
Vento sopra, traz a força de oyá
Na pureza de ewá, um novo amanhã
A coragem vem de obá
O saber vem de nanã

Eh mulher feita no poder da criação
Deságua no solo a chama sagrada
Soprando os segredos da renovação
Com a bênção de orum clareou, clareou

Ritual e feitiçaria, no ayê um novo dia
Santuário que das cinzas ressurgiu
Natureza em harmonia então sorriu
Lá vem elas, guerreiras, poderosas yabás
Carregada de axé
Nossa Morada renascerá.

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